Todos já falaram sobre as falas de Emerson Leão e Osvaldo de Oliveira em relação ao atual treinador da seleção brasileira, Carlo Ancelotti, e os demais estrangeiros presentes nos clubes. Foram palavras deselegantes e completamente fora de qualquer nexo. Fato consumado.
Mas este novo episódio pode nos ajudar a usar o cérebro, e não o fígado, para refletir sobre pontos que devemos melhorar para ter uma formação melhor destes treinadores. Então vamos lá (que isso vai longe):
Formação
A Lei Geral do Esporte (14.597/2023), em seu artigo 75, reconheceu e regulamentou a profissão de treinador esportivo (e no artigo 78 faz o mesmo em relação aos árbitros. Que beleza!!!). É reconhecido como treinador esportivo profissional “a pessoa que possui como principal atividade remunerada a preparação e a supervisão da atividade esportiva de um ou vários atletas profissionais”.
Para exercer a profissão existem algumas exigências. Quem tem o diploma em Educação Física pode exercer. Quem tem diploma de formação profissional em nível superior em um curso reconhecido pelo Ministério da Educação ou em curso de formação profissional ministrado pela organização nacional que administra e regula aquela modalidade, também entra nessa lista.
Todos aqueles que já exerciam a profissão, de forma comprovada, nos últimos três anos também. Além de ex-atletas que comprovem atuação naquela modalidade por três anos seguidos ou cinco alternados e que participam de cursos de formação de treinadores.
Isto posto. O problema é que o acesso ao curso da CBF (um dos caminhos para se tornar o treinador de futebol) é difícil. São quatro licenças. A primeira, a licença C, precisa de um investimento de R$ 5.880, segundo o site da CBF Academy. Para a licença B o valor é de R$ 9.030. Para a licença A o valor é de R$ 13.200. E para a licença PRO o valor é de R$ 24.090. Ou seja, para chegar à elite do futebol o cidadão ou a cidadã tem que disponibilizar R$ 52.200 (sem levar em conta o desconto de 5% para quem paga a vista nas três primeiras licenças e outros gastos como viagens para aulas presenciais e outras coisas mais).
Não seria mais inteligente associar este curso às universidades? Ao curso de Educação Física? A possibilidade de bolsas de estudo e outras ações para ampliar o acesso facilitaria muito essa formação.
Dirigentes
Segundo o levantamento do ge.globo, o tempo médio de permanência de um técnico em um clube da elite brasileira está em 5,8 meses. Entre janeiro e outubro de 2025 foram 79 trocas, três a menos do que no mesmo período de 2024.
Neste ano todas as trocas foram feitas por resultados ruins. Independentemente se o clube é bem administrado ou não, se os salários estão em dia ou não, se conta com infraestrutura ou não, todos os treinadores são exigidos como se de um dia para o outro transformasse o seu respectivo clube no Real Madrid e conquistasse a UEFA Champions League do absoluto nada.
A falta de planejamento, de conhecimento técnico e o não conhecimento do elenco que tem são fatores que colaboram, e muito, para que técnicos sejam contratados de uma maneira extremamente aleatória. Eu diria que nem Ronaldinho Gaúcho, o rei do rolê aleatório, teria a capacidade de algo assim.
Além disso, os “cartolas” ainda ficam de joelhos para as pressões das arquibancadas, dos conselheiros dos clubes, de influenciadores dos clubes e da própria imprensa. A falta de convicção no seu trabalho e no trabalho do treinador da vez também colaboram para a desgraça.
E é bom lembrar, nas divisões de base o cenário é o mesmo. Os clubes querem títulos, não querem formar atletas, e por consequência, não formam treinadores.
Entorno
Sempre ouvimos que os clubes ingleses contam com um bom planejamento. Se um time sabe que a sua luta na Premiere League é para não ser rebaixado, então trabalha para isso, sem inventar moda (lógico, com algumas exceções).
No Brasil, a mentirosa propaganda de que aqui podemos ter 12 ou 13 disputando um título do Brasileirão faz com que o nível de exigência ultrapasse qualquer limite do bom senso.
Torcedores sem paciência (mas neste caso se apela para a carta do “emocional”). Influenciadores que querem a desgraça pelo like. E ainda tem nós da imprensa que não contextualizamos o cenário e colaboramos para a mentira citada no parágrafo anterior.
E a parte pior é que nenhum dos grupos citados tem a humildade de entender que estão colaborando para o erro.
Não estou dizendo que não devemos criticar. A ideia é pensar que contextualizar situações pode ser um caminho para um debate mais inteligente sobre o trabalho feito em cada clube. Não dá para exigir do Santos, que veio da Série B e que tem problemas administrativos graves, a mesma coisa que se exige de Palmeiras e Flamengo, clubes arrumados e fortes.
O Santos é um time grande, é claro, mas não adianta simplificar exclusivamente nisso. Hoje não tem cláusula paraquedas que mantinha o nível financeiro de um time rebaixado. Hoje a diferença é grande e o acesso não significa que haverá um Pix mágico que vai depositar zilhões nos cofres e pronto. Ou seja, o seu poder de ação é muito menor do que aqueles que estão arrumados.
Mas infelizmente exigimos do Santos o mesmo de Palmeiras e Flamengo.
Este exemplo é só uma amostra, pois muitas vezes fazemos isso com times em situações piores.
E nessa situação toda, o treinador é exigido para fazer um milagre como se levar um time a um título fosse tão fácil quanto fazer um miojo.
Resumo da Ópera
Melhorar a formação dos treinadores do Brasil demanda uma mudança completa de todos que estão envolvidos no futebol. Clubes melhor administrados, planejamentos profissionais e que não inventem moda, contextualização da situação de cada time e maior cuidado nas contratações destes treinadores podem dar mais tempo para trabalhos darem certo.
É claro que ainda tem a questão do calendário maluco, a falta de pré-temporada e outras coisas, mas se todos tiverem uma maior consciência, podemos encontrar um caminho para formar treinadores que realmente possam fazer grandes trabalhos.
Observação
Quase que me esqueci…
…Parar de analisar técnico pela idade ou pelo local em que nasceu também ajuda nesse processo.
SE VOCÊ CHEGOU NO FINAL DO TEXTO, PARABÉNS!!!
Até a próxima, Produção!!!



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