As semifinais da Conmebol Libertadores 2024 mostraram mais uma vez a força dos times brasileiros nesta competição. As vitórias de Atlético-MG e Botafogo contra River Plate e Peñarol, respectivamente, foram gatilhos para que jornalistas dos nossos países vizinhos realizassem novos debates sobre a força do futebol brasileiro. Mas diferente do que se pensa geralmente, tal cenário não foi criado a partir de 2019.
O ano da primeira final única da Libertadores, quando o Flamengo vence o River Plate em Lima (Peru), é usada como base, pois desde então todos os títulos são levados para o Brasil (e muito provavelmente se dará uma nova final brasileira, desta vez em Buenos Aires).
Mas a realidade é que tal domínio dos clubes brasileiros apareceu há um bom tempo. Caso Atlético-MG e Botafogo conquistem a vaga na final do dia 30 de novembro, será a 16ª vez que pelo menos um clube brasileiro chega na final desde 2005, exatamente a primeira final entre times do mesmo país, com vitória do São Paulo contra o Athletico Paranaense.
De 2005 para cá, os clubes brasileiros só perderam por três vezes: em 2007, quando o Grêmio foi derrotado pelo Boca Juniors (Argentina); em 2008, quando a LDU (Equador) venceu o Fluminense; e em 2009, quando o Estudiantes (Argentina) venceu o Cruzeiro. Ou seja, em 2024 podemos ter o 13º título em 20 edições.
Para se ter ideia da força da terra de Pelé neste período, até 2004 os clubes brasileiros somavam 11 títulos, enquanto os times argentinos somavam 20. E o placar neste ano pode terminar 25 para a Argentina e 24 para o Brasil.
Como comparativo, de 1985 até 2004 (20 finais), os brasileiros disputaram o título por 10 vezes e venceram seis. Aumentando a pesquisa, desde a primeira Libertadores da América, em 1960, até 1991 (ou seja, 32 finais), os brasileiros chegaram em 11 e venceram apenas cinco.
Motivos
E aí vem o ponto de opinião. O bicampeonato do São Paulo, 1992 e 1993, foi primordial para alavancar o torneio por aqui. De lá para cá os brasileiros só ficaram fora de uma final em sete oportunidades (1995, 2001, 2004, 2014, 2015, 2016 e 2018).
O torneio que era tratado como algo menor que um estadual, passou a ter o valor que merece. A tão sonhada taça, somada a possibilidade de disputa de um mundial, transformou a Libertadores em sonho, e agora, em obsessão.
Outro ponto que colabora é a melhora do nível do futebol brasileiro. Mais rico que os vizinhos da América do Sul, com possibilidade de contratar os principais jogadores de seus rivais sul-americanos e com um nível de disputa local muito maior.
Em períodos em que brasileiros conquistam a Libertadores e a Conmebol Sul-Americana, o Brasileirão chega a classificar 15 de 20 times da Série A para disputas internacionais. Ou seja, na edição seguinte do torneio nacional, o seu time pode disputar 28 jogos contra equipes com recente experiência internacional (caso seja um dos outros cinco, disputa 30 partidas).
Outro ponto é o nível de competitividade. Enquanto no Brasil, uma vitória vira uma diferença entre uma vaga em um torneio internacional ou a zona de rebaixamento para a Série B. Na Argentina, por exemplo, o nível de disputa é cada vez menor, devido ao aumento do número de times na primeira divisão (alcançará 30 em 2025) e o rebaixamento (quando tem) feito por uma média dos últimos três anos. A chance de muitas equipes evitarem esforço durante o torneio é grande, o que atrapalha quem quer alguma coisa e evita qualquer possibilidade de evolução.
Observação
E considero importante ressaltar, todo esse domínio brasileiro na Libertadores acontece em meio aos antigos problemas do Brasil como o calendário maçante, a falta de respeito à Data FIFA, a facilidade para que talentos saiam logo após os 18 anos para clubes europeus, as dívidas gigantescas (até bilionárias) de alguns clubes, a falta de estabilidade dos técnicos e outras tantas situações que precisam ser resolvidas.
Se a CBF, as federações estaduais, os clubes e outros envolvidos realizassem um esforço para resolver tais problemas, é bem possível imaginar que as chances dos demais times sul-americanos na Libertadores se reduziria a quase zero, e assim o torneio continental teria ainda mais a cara de um Brasileirão.

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