Mais um 8 de julho. Parece que foi ontem, mas nesta segunda-feira temos a lembrança dos 10 anos de uma das maiores humilhações do futebol brasileiro: o 7 a 1. A maior derrota de nossa seleção em uma Copa do Mundo, a maior humilhação de um semifinalista em mundiais e um trauma que transparece persistir até hoje. Em uma década não demonstramos qualquer evolução.
Claro que falar isso após a eliminação na Copa América para o Uruguai (e da maneira que aconteceu) facilitar uma análise mais raivosa sobre o assunto. Mas na verdade, nos últimos 10 anos optamos por soluções rápidas, mas que não deram resultados. Não realizamos de fato uma análise sobre o que aconteceu e o que deveríamos melhorar. A manutenção da soberba brasileira diante de seu principal esporte é o primeiro grande problema.
Após o mundial de 2014 resolvemos criar um caça às bruxas contra os técnicos mais experientes. Tal fato atrasou a chegada de Tite, que era o principal nome para ocupar o cargo, mas que de certo modo era visto como alguém que fazia parte do grupo que se encontravam Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira.
A nossa opção foi por Dunga. Capitão do Tetra e que encarou mais uma vez o convite para treinar a seleção como uma espécie de convocação obrigatória do Exército. Porém, diferente de sua primeira passagem em que até teve bons momentos, o treinador acabou no meio de suas eliminações bizarras na Copa América. Em 2015, nos pênaltis contra o fraco Paraguai, e em 2016, na Copa América Centenário, caindo na primeira fase, algo que não acontecia desde a Copa das Confederações de 2003.
O próximo técnico da seleção é o Sr. Adenor
Dunga ficou fora dos Jogos Olímpicos, dando lugar a Rogério Micale que acabou liderando a equipe na conquista do ouro inédito. Tite deixou o Corinthians e assumiu o lugar com dois anos de atraso. Iniciou bem, passou o carro nas Eliminatórias para a Copa de 2018.
Porém, na Copa, apostou em jogadores que não estavam 100%, entre eles, Neymar. Viu seu camisa 9, Gabriel Jesus, ter que se desdobrar para marcar lateral e compensar a fragilidade do principal craque, e assim acabou criticado por não fazer gols. No final, eliminação para a Bélgica em um jogo que era possível avançar.
Tite é mantido. A lógica era correta, pois ele precisava fazer um ciclo completo. O time mudou, passou a jogar um futebol abaixo e puramente buscando o resultado. Conquistou a Copa América de 2019 em casa, passou novamente o carro nas Eliminatórias para a Copa de 2022 e perdeu a Copa América da Covid-19, em 2021, para a Argentina.
Chegou na Copa, o time sofreu novamente com contusões e a falta de alternativas táticas. E apresentou um outro problema, a falta de atitude dos jogadores em situações simples. O gol da Croácia, com sete jogadores no ataque, faltando cinco minutos para o fim da prorrogação, apenas é um retrato da falta de atitude do time, pois não é necessário esperar um treinador para entender o que deveria ser feito naquele momento.
Ninguém considera a seleção uma prioridade
Tite deixa a seleção, mas lembrando que sua saída foi avisada com meses de antecedência. Para a CBF, também enrolada com seus problemas internos, era fácil antecipar uma escolha e deixar o planejamento para o próximo ciclo pronto. Mas não foi o que aconteceu.
Ramon Menezes, que deveria se preocupar exclusivamente com o time sub-20, teve que assumir o comando interinamente. Após o péssimo futebol apresentado em amistosos, a escolha foi por outro interino, Fernando Diniz. O então treinador do Fluminense teve que se dividir entre um time que buscava (e depois conquistou) a Libertadores e uma seleção que não tinha qualquer preparo. Tudo isso na espera de um sim de Carlo Ancelotti.
O que ficou claro é que ninguém dava prioridade para a seleção, nem mesmo a CBF que perdeu mais de um ano para ter alguém fixo no cargo. No final, Ancelotti ficou no Real Madrid (certo ele) e a escolha foi por Dorival Junior.
A boa estreia na vitória contra a Inglaterra e o empate contra a Espanha, ambos os jogos fora de casa, gerou uma expectativa enorme. Porém, como diz o bom e velho ditado popular: “A expectativa é a mãe da merda”.
Dorival convocou a seleção para dois amistosos e a Copa América. Passou 37 dias treinando o time e no final, a falta de planejamento, somada a falta de alternativas táticas e a falta de atitude dos jogadores fez com que o Brasil fosse eliminado cedo e apontando uma série de involuções.
Mas como está claro neste textão, tudo que ocorreu hoje foi apresentado naquele 8 de julho de 2014.
Atenção, chegou a hora da revisão
Eu sei que futebol não tem solução mágica. É possível que este mesmo time seja campeão do mundo em 2026. Mas o que não podemos admitir é que não haja um sério processo de análise sobre as mazelas do nosso futebol.
Um calendário insano que não permite que ocorra um bom período de treino dos times. Técnicos que tem que se virar nos 30 para operar verdadeiros milagres em equipes que estão longe do ideal. Clubes que não contam com administrações profissionais que consigam pensar no curto, médio e longo prazo.
Além disso, algo que é culpa nossa, dos jornalistas. Não lideramos um sério debate sobre o nosso futebol e colaboramos com todas essas insanidades do nosso futebol, ajudando na pressão para demissão de técnicos que não apresentam resultados (mesmo sabendo que eles não têm tempo para treinar os times) e realizando debates que transformam atletas em criminosos.
Resumindo…
… O problema do nosso futebol é generalizado.
E a possibilidade de tudo isso ser esquecido em caso de hexa é gigante.
Está na hora de realmente ter uma conversa séria, buscar uma evolução que ocorra independentemente dos resultados, ajudar a ter um calendário que permita uma melhor formação de atletas, técnicos e árbitros. Dirigentes que realmente saibam administrar um clube, sem se preocupar com a manutenção no poder ou com torcidas organizadas que fingem que se importam com o time de coração, mas que na verdade também fazem parte do processo bizarro do nosso futebol.
Eu poderia continuar, mas o texto está longo demais e preciso ainda fazer muita coisa. Mas ainda resta perguntar: Até quando vamos permitir esse cenário?
Feliz, 7 a 1!!!
Até a próxima, Produção.



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