Eu nasci em 23 de agosto de 1989.
Essa informação acaba sendo importante, pois o que escrevo neste blog não é uma história pessoal direta com Ayrton Senna, mas como eu entendi quem ele era e o seu tamanho ao longo da minha vida.
Eu tinha quatro para cinco anos naquele 1º de maio de 1994. Não tenho qualquer lembrança do acidente, da tristeza daquele no País e tudo que ocorreu depois devido a morte do tricampeão do mundo. Nem mesmo me lembro do tetracampeonato mundial no futebol, conquistado no dia 17 de julho daquele mesmo ano.
Mesmo assim Senna sempre foi uma figura presente, principalmente para uma criança que se apaixonou pelo esporte e via de tudo na televisão. Mesmo assim não conseguia entender o tamanho daquele cara que vencia e erguia a bandeira brasileira como se fosse um troféu. Não entendia a importância daquele atleta que vencia e que tocava aquela música, o Tema da Vitória.
30 de julho de 2000
Naquele domingo estava na casa do meu padrinho Antônio e da minha tia Nadir. Moramos na mesma cidade, porém, dormíamos na casa deles em alguns finais de semana. Acordamos cedo, meu padrinho e eu começamos a ver o Grande Prêmio da Alemanha. Meu pai, Francisco, estava na cozinha com minha mãe, Jacinete, meu irmão Rafael e minha tia.
Rubens Barrichello estava na Ferrari, Tinha largado de 18º e na 25ª volta estava em 6º. Nesta mesma volta um funcionário da Mercedes invadiu a pista para protestar. Ele reclamava que a empresa demitia diversos funcionários da fábrica enquanto gastava uma cifra milionária para fazer o motor para os carros da McLaren.
Meu padrinho e eu nos agitamos e começamos a falar mais alto do que o comum. Meu pai estranhou, foi até a sala e perguntou o que estava acontecendo. Após ouvir que um maluco tinha invadido a pista, meu pai resolveu se sentar ao meu lado para acompanhar o restante daquela corrida.
Rubinho assumiu a liderança na 35ª volta, controla e completa a 45ª volta em primeiro. Uma vitória que não acontecia desde 7 de novembro de 1993, quando Senna venceu na Austrália, corrida marcada pelo show da Tina Turner (1939-2023), quando ela canta The Best para ele.
Me lembro do Galvão Bueno gritando antes da bandeirada final: “E nós vamos ouvir o Tema da Vitória, que há sete anos não tocávamos”. Veio a música. Pela primeira vez escutava aquela canção gravada pelo Roupa Nova sem que ela estivesse ligada a uma corrida do passado.
Meu pai olhou na minha cara e disse que era a primeira corrida que ele via desde que o Senna morreu. Então percebi que era a primeira corrida que tinha assistido ao lado do meu pai. Ali caiu a ficha sobre o tamanho de Ayrton Senna.
Herói?
Mesmo assim não conseguia entender como várias pessoas chamam o Ayrton Senna de herói. O que tem de tão fantástico em pilotar um Fórmula 1 para chamar alguém assim?
A minha segunda ficha só caiu quando uni minha paixão por esporte com meu amor por história.
Ayrton Senna correu na Fórmula 1 de 1984 até 1994. Ou seja, passou pela Ditadura Militar, pelas Diretas Já!, pela eleição indireta de Tancredo Neves (1910-1985). O governo de José Sarney, que conseguiu fazer a transição democrática, mas que pecou na economia. Pela nova constituição e pelo governo de Fernando Collor de Melo, que ajudou a destruir ainda mais as nossas finanças. O Brasil era um País da miséria.
Quando isso acontece é natural que o esporte seja uma espécie de válvula de escape. Claro que quando se fala de Brasil, apontamos o futebol como essa principal válvula. O futebol de clubes é muito nichado, não vai agradar a todos. Então, vamos mirar na seleção brasileira. Neste período, a seleção masculina só ganhou um título: a Copa América de 1989. Um torneio que foi bem mais ou menos.
E aí entra o Senna na parada. O cara ganhava, o que já dava um grande orgulho. Mas a imagem da bandeira é que impulsionava a situação. E pensar que esse tipo de comemoração nasceu como resposta para uma zueira por causa de futebol.
(Vamos falar da bandeira)
21 de junho de 1986. Quartas de final da Copa do Mundo disputada no México. O Brasil empata em 1 a 1 com a França e é eliminado nos pênaltis. Naquele mesmo final de semana a Fórmula 1 estava em Detroit, nos Estados Unidos.
Senna corria na Lotus, motor Renault, ou seja, mecânicos e engenheiros franceses. Claro que tiraram um sarro do brasileiro que estava ali. O piloto ficou invocado. No dia seguinte, 22 de junho de 1986, Ayrton conquista a vitória e vê um compatriota com uma pequena bandeira. Pede ela e saí na volta da vitória segurando aquele símbolo. Depois a cena se repetiu por diversas vezes, sem a necessidade de responder novamente a zueira dos franceses.
(voltando ao texto)
Quando entendi todo esse cenário, eu entendi o meu pai e tantos outros que se apaixonaram por aquele piloto vencedor, muito acima da paixão da Fórmula 1, pois entendiam que Ayrton Senna dava para eles o direito de sorrir, nem que seja por cinco minutos.
E 30 anos depois de sua partida, ainda relembramos disso.
Ouso escrever que enquanto houver um brasileiro que entenda e compreenda todo esse cenário, sempre será compreensível entender quem chama Ayrton Senna da Silva de Herói…
…ou pelo menos quem possa chamá-lo de AYRTON! AYRTON! AYRTON! AYRTON SENNA DO BRASIL!!!!!!



Deixe um comentário