Chegamos ao 29 de fevereiro. A data que ocorre a cada quatro anos acaba trazendo muita curiosidade, mas não necessariamente lembranças. Mas não vai ser o caso deste texto. Vamos relembrar esse mesmo dia e mês, mas em 1940, ano em que uma artista negra chegou ao Olimpo do cinema, mas que ao mesmo tempo ainda vivia os terrores de um racismo nada escondido.
Seu nome é Hattie McDaniel. Nascida na cidade de Wichita, no estado do Kansas (EUA), em 10 de junho de 1893. E que na 12ª edição do Oscar, em 1940, conquistou a estatueta de melhor atriz coadjuvante pelo seu papel como a empregada doméstica Mammy, no filme E o Vento Levou! (Gone with the Wind). Simplesmente a maior bilheteria da história do cinema (levando em conta a inflação o filme arrecadou 1,8 bilhão de dólares até 2022).
Mas o glamour que nos apresenta o Oscar esconde uma história tão racista quanto o filme. Aliás, antes de entrar na premiação, é bom lembrar que o filme é sim preconceituoso, tanto que quem for assisti-lo no streaming Max (antigo HBO Max) vai ter um texto prévio:
E o Vento Levou é um produto de sua época e retrata preconceitos raciais e étnicos que, infelizmente, têm sido comuns na sociedade americana. Essas representações racistas estavam erradas e estão erradas hoje. Para criar um futuro mais justo, equitativo e inclusivo, devemos primeiro reconhecer e compreender a nossa história. Este filme é apresentado tal como foi originalmente criado.
Voltando para a premiação. Hattie não teve sequer o direito de ficar com seus colegas de filme na mesma mesa. Ainda não é tão esclarecido o local em que ela estava na premiação, pois muitos afirmam que ela estava próxima da cozinha, no fundo do salão, e outros falam que ela ficou ao lado do banheiro.
E o pior, sua presença só foi permitida após uma autorização, pois à época os Estados Unidos era um país segregado. Apesar de um cenário completamente racista, a atriz não se esqueceu deixar explicito o quanto aquele prêmio seria importante para tantos negros e negras.
Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, membros da indústria cinematográfica e convidados de honra: este é um dos momentos mais felizes de minha vida, e quero agradecer cada um de vocês que me selecionaram a um dos seus prêmios por sua gentileza. Isso me fez sentir muito, muito humilde; e sempre o erguerei como um farol para qualquer coisa que eu possa fazer no futuro. Espero sinceramente ser sempre motivo de orgulho para a minha raça e para a indústria cinematográfica. Meu coração está pleno demais para lhes dizer como me sinto, e posso dizer obrigada e que Deus os abençoe.
A glória de ser uma agraciada com um Oscar não mudou a vida de Hattie por completo. Diferente dos tempos atuais em que vencedores deste prêmio são anunciados em novos filmes como forma de torná-los mais atraentes para público, a atriz seguiu com seus papeis de empregada, pois é assim que os negros são vistos. E digo no presente, pois sinceramente pouca coisa mudou nestes últimos 84 anos, inclusive no Brasil.
Em sua morte em 26 de outubro de 1952, aos 59 anos, Hattie deixou dois desejos em seu testamento. O primeiro era que sua estatueta fosse entregue à Universidade Howard e a segunda é que fosse enterrada no cemitério Hollywood Forever.
Mas nem mesmo após falecer foi ouvida. Sua estatueta foi entregue para a Universidade em questão, porém, não se sabe de seu paradeiro até hoje. E a segunda, não houve permissão para que seu descanso eterno fosse ao lado de outras tantas estrelas do cinema. E o motivo para isso era o mesmo que não a fez se sentar ao lado de seus colegas no Oscar ou que a manteve como uma eterna empregada no cinema: eles não aceitavam negros no cemitério.
Atualmente ela é homenageada com duas estrelas na calçada da fama. Uma para sua carreira no rádio e outra para sua história no cinema.
Hattie McDaniel não foi comum, foi extraordinária, mesmo em meio ao caos. A cara de um 29 de fevereiro.



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